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Vinho e Pandemia




Que dia é hoje? Segunda? Terça? Não sei mais identificar quais são os dias da semana. Isso também não importa. Trabalho, estudo, cozinho, cuido das plantas, do filho. Hora do noticiário... então percebo que o mundo está lá fora, tentando buscar um caminho. Os olhos dos personagens do noticiário são tristes, e quando há alegria, é resposta do amor altruísta que lateja na alma.


O rancho acabou. Hora de ir ao supermercado... lembro que faço parte deste mundo, que é hora de me adequar aos que estão lá fora. Então me visto para me proteger da guerra biológica.


Percebo que não tenho mais rosto, tenho máscara. Cadê o batom? Pra quê o batom? Isso não faz mais parte do meu consumo. A boca não está mais exposta. As prioridades são outras.


Só meus olhos, por trás das lentes, se expressam. Com eles me comunico. Eles falam, dançam, se emocionam, contestam, exigem o distanciamento social, pedem, dizem não, dizem sim.


Retorno pra casa, hora de me despir. Ainda no quintal, fico igualzinha a quando tive a permissão de chegar a este mundo, há mais de meio século. Nua e crua, preciso eliminar o perigo, que talvez tenha me seguido, agarrado à minha roupa, às sacolas, aos produtos.


Água corrente, sabão, água sanitária, álcool, vinagre e pensamentos positivos: eliminei o inimigo invisível? Neste momento não há resposta. É uma incógnita. Somente os próximos dias dirão.


Minhas mãos...ah, minhas mãos. Elas não são mais as mesmas, estão tensas, evitam tocar, não agridem, mas foram agredidas pela química. Eliminei o monstro? Outra vez a dúvida permeia meus pensamentos. Não sei.


Mas minhas mãos não são mais as mesmas. Olho-as enrugadas. Será o peso das décadas sobre os ombros? Paro, olho, respiro. Não tenho respostas.


Mas minha cabeça ainda é a mesma. Penso, reflito, extravaso e movo os dedos, as mãos, e a poesia escorre no teclado, os sentimentos fluem.... Estou viva! Que Fado Tropical é esse? Hora de saborear um vinho e viver. Vi! Ver! Ainda vejo o mundo. Isso é viver!


Marilena Freitas


Marilena Freitas é jornalista e essa crônica foi selecionada no Concurso Prêmio Devair Fiorotti, de Literatura, e vai integrar os dois primeiros volumes da recém criada Coleção Literatura de Circunstâncias da Editora da UFRR.


O concurso contou com a participação de de escritores de vários Estados, inclusive de países como Portugual e Polônia.

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