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Marginalização expõe população trans à pandemia, diz pesquisadora do Unaids



A situação de marginalidade e de vulnerabilidade social foi determinante para ainda hoje existirem mortes de pessoas que desenvolveram a Aids em uma epidemia de quatro décadas. “A gente sabe que com a covid-19 vai ser assim também”. A comparação entre os contextos da doença é feita pela pesquisadora Ariadne Ribeiro, assessora de apoio comunitário do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) no Brasil, há um ano. “É uma frente de trabalho nossa tentar proteger as pessoas que estão mais vulneráveis. A marginalização da população trans e da população preta continua sendo o fator que deve nos preocupar em relação à covid e também ao HIV”, afirma Ariadne, que é ativista trans e estudiosa no mestrado e doutorado de pacientes usuários de drogas com HIV.


Para Ariadne Ribeiro, é necessário fortalecer a população trans com ações de solidariedade. “Eu perdi há três dias uma grande amiga, Amanda Marfree. Ela continuou levando cestas básicas para meninas trans em vulnerabilidade social e pegou covid-19. Que o sacrifício dela não seja esquecido”. Amanda atuava no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD) em São Paulo.


Vírus e preconceito


Para Ariadne Ribeiro, existe uma cicatriz na sociedade brasileira não resolvida, uma ferida aberta desde o período de colônia, que afeta populações marginalizadas nas mais diferentes relações sociais estabelecida por pessoas que se identificam como LGBT. A assessora da Unaids exemplifica que, somente na ONU, encontrou maior representatividade. “A ONU foi o primeiro lugar da minha vida que eu trabalhei e que já tinha trabalhado uma pessoa trans antes de mim. Foi graças a ela que as portas estavam abertas para outra pessoa trans”.


Ela explica, inclusive, que também no período de curso universitário não conviveu com pessoas negras ou trans.“É muito importante que a gente saiba que mais do que a responsabilidade social das empresas de nos incluírem, a gente também precisa ter a responsabilidade de deixar portas abertas quando a gente sai do lugar.”


Orgulho e dificuldades


Ariadne Ribeiro sofreu na pele todas as consequências de se assumir mulher trans no Brasil. Ela afirma sentir muito orgulho da trajetória. “Eu sinto muito orgulho de ser essa pessoa e ter passado por todas essas dificuldades e hoje estar num lugar onde eu tenho clareza, por vivência empírica, por viver na pele o sofrimento das minhas iguais”. Ela chegou a ficar em situação de rua e precisou se prostituir para sobreviver. Eu tenho certeza que nenhum sofrimento, de nenhuma pessoa, que hoje é invisibilizada ou marginalizada é para mim invisível. Eu vejo tudo”.


Segundo dados do Associação nacional de travestis e transexuais (Antra), em 2019, 124 pessoas trans foram assassinadas no Brasil. O país lidera ranking de assassinatos nos últimos 10 anos. Outro dado do levantamento é de que 80% dos assassinatos apresentaram requintes de crueldade, apenas 8% dos casos tiveram suspeitos identificados.


“A sociedade não convive com pessoas trans. Quantas pessoas trans trabalham com você? Quem é a pessoa trans que convive com você todos os dias? Você sabe o que ela sente? Ou ela continua no seu imaginário preconceituoso?”


Segundo o Antra, no Brasil, 90% das travestis e mulheres transexuais ainda vivem da prostituição. “Quando você pensa “Quero falar com uma pessoa trans. Para onde que eu vou?” Você já imagina uma rua de prostituição, porque no imaginário de grande parte da população ainda continuam associando pessoas trans à prostituição. Esquecendo, muitas vezes, que a condição de trabalhadora sexual, às vezes não foi uma escolha, foi uma alternativa para se sustentar dentro de um mundo que te marginaliza simplesmente por você ser quem você é”, afirma Ariadne Ribeiro.


Fonte: Evellyn Luchetta e Geovanna Bispo, da Agência Uniceub / Congresso em Foco

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