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ARTIGO: EXCOMUNHÃO, NASCIMENTO E VIDA DE UM REPÓRTER

Públicado em 17 de Fevereiro de 2019.

Por Plinio Vicente da Silva.




Lá pelo final dos anos 50 do século passado, depois de um período internado no Pavilhão Fernandinho da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, voltei para a casa de meus pais. Na tranquilidade de uma pequena fazenda nas cercanias da vila de Guatapará, às margens do rio Mogi Guaçu, passei a me recuperar de algumas cirurgias ortopédicas para a correção de sequelas deixadas pela pólio.

Nessa quadra da minha vida, aproveitando o tempo de internação, já fizera a primeira comunhão. Então, junto com uma enorme esperança de voltar a andar, levei para casa o aprendizado do Catecismo católico, ensinado por padres e freiras, tempo em que ele era ainda ministrado quase todo em latim.

Logo que me acomodei, minha mãe, já sabendo que eu tinha razoável conhecimento dos sacramentos da Santa Igreja, me intimou a rezar uma novena para Nossa Senhora Aparecida. Estava em débito com a santa de sua devoção por ter recebido a graça de ver curado um panarício nos dedos das duas mãos de lavadeira.

Mais tarde, bem mais tarde, quando o problema se repetiu e parecia não ter solução, veio a saber a causa por um médico, que acabou por livrá-la da enfermidade: tudo fora consequência do uso continuado de sabão em barra, caseiro, que dona Alice fabricava com sebo bovino e uma grande quantidade de soda cáustica.

Minha mãe lavava todos os dias trouxas e mais trouxas de roupas das famílias mais remediadas da vila. O dinheiro não era lá grande coisa, mas esse era o jeito de ela ajudar na minguada renda doméstica, quase toda sustentada pelas mãos calejadas de um heroico e incansável roceiro caipira, meu pai.

Essa incursão pelas novenas, puxando o terço e cantando o Kyrie eleison; Christe eleison; Kyrie eleison, acabou mudando minha vida. Não foi preciso muito tempo, se me lembro bem, mas bastaram apenas três noites de oração para eu ganhar o apelido de padre. De repente choviam convites para que minha mãe mandasse o filho beato para as casas das suas clientes a fim de ministrar a prática da fé católica. Foi quando me deixei levar pelo inebriamento e a popularidade me empolgou, me subiu à cabeça, pois era algo incomum um moleque de 10 anos transformar-se assim de repente num líder religioso.

A ebulição dos acontecimentos me levou de tal forma a uma posição de respeito e credibilidade que pouco tempo depois eu já comandava todas as novenas da vila. Requisitado diariamente para rezar o terço, atendia não só as famílias da área urbana como também aquelas que viviam nas fazendas, levado pelo negro Crispim, um charreteiro de confiança da família, a quem meu pai contratara para me servir de “motorista”.

O sucesso foi tamanho que não me contive e fui além da mera função de rezador. Passei a ministrar os sacramentos do batismo, casamento, crisma e até extrema-unção! Eu era visto como um fenômeno, pois abusava das palavras em latim e enrolava todo mundo com frases como Gloria in excelsis Deo, dominus vobiscum, omnipotens, habeas misericordiam nobiscum, ignoscas nobis peccata nostra et conducas nos ad vitam aeternam...

Terminada a construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, o bispado de Ribeirão Preto mandou para Guatapará o padre Vitório Cestari, seu primeiro pároco. Qual não foi seu espanto, que depois virou desespero, quando soube das minhas estripulias como falso padre. Não deu outra: teve reparar aos olhos da Igreja toda a m... que eu fizera.

Certo dia ele apareceu lá em casa e comunicou a dona Alice a decisão de pedir ao bispo minha excomunhão, tamanha a gravidade dos atos que eu praticara. Minha mãe chorou, pediu perdão, disse que eu me emendara e que estava agora em Ribeirão Preto trabalhando como jornaleiro e aprendiz de jornalista. E que uma excomunhão acabaria com qualquer chance de eu conseguir alguma coisa na vida. Frei Vitório não arredou pé. Manteve sua decisão, que seria levada ao bispo em carta. Esperava que no Crisma, marcado para três meses depois, certamente o chefe da diocese anunciasse o meu castigo: expulsão das fileiras da Igreja Católica Apostólica Romana.

Num final de semana de folga fui visitar minha família e minha mãe. Colérica, só faltou chicotear-me ao informar sobre a decisão do padre. Não levei muito a sério, cheguei mesmo a zoar com meus amigos, lembrando que eu seria o único excomungado em toda a região do vale do médio rio Mogi Guaçu e que isso não era pouca coisa. Na verdade, eu era um jovem irresponsável, para quem um título como aquele poderia, inclusive, me tornar ainda mais popular, principalmente entre os evangélicos, que começavam a fincar raízes na pequena vila.

Bom, a história acabou bem diferente. Padre Alfredo não conseguiu minha excomunhão com dom Luís do Amaral Mousinho, que desde 12 de março de 1952 era bispo de Ribeirão Preto, nomeado pelo Papa Pio XII. Um fato inusitado me salvou e impediu que minha mãe enfrentasse a vergonha de ver seu filho expulso das fileiras da sua religião.

Já há algum tempo eu morava e trabalhava em Ribeirão Preto, a convite do saudoso jornalista Marcial Fernandes, que vira em mim um lampejo de sucesso na profissão e me levara para estagiar no O Diário, jornal da família Romano. Não fiquei muito tempo por lá e comecei a fuçar redações de rádios e de outros jornais em busca de uma oportunidade.

A manhã em que o chefe da diocese iria à minha vila ministrar o crisma e sacramentar a minha exclusão da religião católica era justamente a da minha visita Guatapará. Resolvi passar o domingo com minha família e pedi carona a seu Orestes Lopes de Camargo, dono do jornal A Cidade, com quem fizera amizade, embora não me tenha dado emprego, e sabia que naquele dia ele viajaria à vila para um encontro político. Aproveitando a ocasião, aceitou dar carona a dois amigos, um jovem deficiente e um velho de batina.

Figura bonachona, de uma simpatia irresistível, ele foi apanhar-me com seu velho Ford na casa em que eu morava, na rua Barão de Cotegipe, na Vila Tibério. Ao entrar dei de cara com o bispo. No caminho, dom Luís lhe contou que, aproveitando a cerimônia do Crisma, atenderia a um pedido do pároco da vila e pela primeira vez iria excomungar alguém. Seu Orestes, a quem eu contara todas as falcatruas religiosas que praticara na minha vida pregressa de falso padre, me olhou de soslaio, encarou seu amigo bispo com um sorriso matreiro e disse enfaticamente:

- Não vai não. O sujeito que você pretende excomungar é este meu amigo aqui. Ele não merece esse castigo, pois tudo o que fez foi por amor a Deus e ao próximo.

Cerca de uma hora depois chegamos à vila. Fui rapidamente em casa, mas voltei logo à igreja, curioso com o que estaria por acontecer. Terminado o sacramento do Crisma, frei Vitório ficou na expectativa de ver o bispo anunciar o início da cerimônia para minha excomunhão. Veio o interminável beija-mão e quando se levantou, dom Luís abençoou a todos e se preparou para ir embora. Parado na porta do velho Ford, seu Orestes zombava da cena e eu, ao seu lado, como que buscava sua proteção. Quando o bispo já ia em direção ao carro, frei Vitório o questionou sobre a excomunhão. Dom Luís abriu um sorriso, pôs-lhe as mãos nos ombros, encarou-o no fundo dos olhos e disse apenas:

- Esqueça, meu filho. Tudo foi feito em nome de Deus, com inocência e sem malícia.


P.S.: Na madrugada de 3 de outubro de 1990, terminada a apuração dos votos que elegeu o brigadeiro Ottomar de Sousa Pinto primeiro governador do recém-criado Estado de Roraima, tive uma surpresa inesquecível. Estava numa roda de jornalistas, entre eles dois com quem trabalhara no Jornal da Tarde e Estadão, Alberto Helena e Sérgio Blakanos, que vieram a Boa Vista comandar o marketing da campanha do João Lyra, ex-sogro de Pedro Collor, candidato ao Senado, quando me foi apresentado o advogado da coligação, trazido de Manaus. Espantado, Vitório Cestari me reconheceu, contou que fora padre em Guatapará e revelou a história da excomunhão. Foi uma gozação geral. Entretanto, minha vingança foi rápida. Perguntei-lhe por que ele havia fugido com uma das meninas mais bonitas da vila e deixara a Igreja de Nossa Senhora do Carmo sem nenhum tostão para ser advogado na capital manauara...


SOBRE O AUTOR:


Plinio Vicente da Silva é jornalista em Roraima.

Nascido há 71 anos em Nova Europa, região de Araraquara, mas criado em Ribeirão Preto, no então distrito de Guatapará, o jornalista Plínio Vicente da Silva ainda convive com os danos provocados pela pólio. Profissional com passagem por vários veículos (rádio e jornal), entre eles O Estado de São Paulo, começou a carreira em Ribeirão. Sua primeira experiência foi como estagiário em O Diário, responsável pelo fechamento da coluna “Lupa e Capote”, onde publicava um resumo das ocorrências policiais da noite.

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